Quando falamos de SRE utilizando Inteligência Artificial, a primeira pergunta que eu sempre faço é: qual é, de fato, o papel do SRE?
E a resposta que eu trago há anos nos meus treinamentos continua a mesma: o SRE é, antes de tudo, um profissional generalista. Um verdadeiro coringa dentro da engenharia.
Claro, o SRE precisa ser especialista em alguns domínios. Mas a grande mudança é que hoje a IA já se provou capaz de ser especialista em muitas coisas ao mesmo tempo. Ela escreve código, analisa logs, sugere arquiteturas, revisa pipelines. Então, se a IA é especialista… qual passa a ser o diferencial real do SRE?
Na minha visão, o diferencial do SRE deixa de ser “fazer” e passa a ser entender o todo. O SRE traz a visão completa: entende o negócio, entende o contexto, entende riscos, trade-offs, boas práticas de confiabilidade e impacto real das decisões. E é justamente aí que a IA entra como aliada — não para substituir o SRE, mas para potencializar a capacidade de decisão.
O debate não é mais “automatizar tudo”. O debate correto é: usar IA para decidir melhor.
Automatizar tarefas é importante, claro. Reduz toil, aumenta eficiência. Mas automatizar sem contexto é só automação cega. E automação cega gera incidentes mais rápidos, falhas mais escaláveis e erros mais caros.
O SRE moderno precisa ir além de simplesmente “dar prompt”. O próximo passo é a criação de agentes de IA — e isso não é nada complexo ou místico. Criar agentes, inclusive multiagentes, significa estruturar a IA para analisar problemas sob diferentes perspectivas: risco, confiabilidade, custo, arquitetura, operação. A IA vira um time de especialistas virtuais, e o SRE vira quem orquestra as decisões.
Nesse cenário, o SRE se torna quase uma versão 2.0 do arquiteto.
Não no sentido clássico de desenhar caixas e setas, mas no sentido de ser o profissional que conecta tudo: pipelines, SLOs, observabilidade, releases, automação, incidentes, negócio. E isso não é coincidência. Se você olha para os próprios princípios de SRE, eles já descrevem exatamente o ambiente completo de uma arquitetura resiliente.
Site Reliability Engineering nunca foi só sobre operação. Sempre foi sobre confiabilidade como estratégia.
E por isso eu não acredito que a IA vai “roubar o emprego do SRE”.
A IA vai, sim, substituir quem está parado, quem só executa, quem não se atualiza. Mas o SRE que entende contexto, que sabe fazer boas perguntas, que sabe validar respostas e que usa IA para ampliar sua capacidade de decisão… esse profissional se torna ainda mais valioso.
No fim das contas, não importa mais se o código tem uma vírgula a mais ou um ponto a menos. Essa não é mais a discussão da nova era. A discussão agora é: estamos tomando as decisões certas para tornar nossos sistemas mais confiáveis, seguros e sustentáveis?
E é exatamente aí que a IA deixa de ser hype e passa a ser ferramenta real para SRE.
Não para pensar por nós. Mas para nos ajudar a pensar melhor.