Há muitos anos, quando eu falava sobre coreografia vs orquestração em arquitetura, uma coisa já era muito clara pra mim:
orquestrar sempre foi mais poderoso do que apenas reagir a eventos.
E eu acho que essa mesma analogia se aplica perfeitamente a utilização de IA para resolver problemas.
Quando falamos de incidentes, não pedir pra IA jogar uma sequência de comandos e esperar que ela resolva tudo de uma vez. Incidentes reais não são determinísticos. Eles exigem contexto, hipóteses, loops, decisões e priorização.
Ou seja: eles precisam de orquestração.
IA não é o “executor mágico”
Hoje, dependendo do framework, a IA já consegue fazer coisas impressionantes: (ex. Agent-os)
- correlacionar sinais
- sugerir causas
- gerar comandos
- iterar sobre outputs ← MUITO IMPORTANTE
Mas ainda existe algo fundamental:
Alguém precisa dizer a ela como pensar.
É aqui que entramos nós, eternos aprendizes e iludidos pela IA.
Jarvis ou Tony Stark ?!
Pra quem conhece, o Jarvis é a inteligência artificial do Tony Stark (Homem de Ferro).
Ela calcula, simula, testa hipóteses, processa dados em escala absurda.
Mas quem define o problema, a teoria e a direção… é o Tony Stark.
Ele não “descobriu a viagem no tempo” porque a IA resolveu sozinha.
A IA acelerou os cálculos.
Mas a orquestração mental era dele.
No mundo dos incidentes, somos nós o Tony.
A IA é o Jarvis.
Se você não sabe do que estou falando.. imagina você fazendo o seu “desenvolvimento” https://www.youtube.com/watch?v=UUoMJL0p1Tc .
Você acha que o Tony Stark teria descobrido sem o JARVIS ? nem pensar, levaria anos só pra fazer a maquete dele dos primeiros segundos haha.
A verdade que poucos querem ouvir
Recentemente fui convidado para falar com executivos sobre como a IA pode reduzir o MTTR de times SRE.
E eu fui direto:
A IA só acelera quem já sabe pensar.
Ela não transforma um executor operacional em um resolvedor sistêmico.
Ela amplifica quem já entende sistemas, risco, contexto e impacto.
Hoje, por exemplo, eu quase não memorizo mais comandos.
Eu descrevo o que quero e a IA executa por mim.
Mas isso só funciona porque eu sei o que precisa ser feito.
Antes achava que ter 5 juniors poderia ser melhor do que 1 Senior.. Hoje já não vejo bem assim as coisas 👀
Quem somos nós nesse novo jogo?
Nós não somos mais digitadores de comandos. (Não fica triste, fui administrador de Linux/Unix por +6 anos.. quantas noites fazendo shell PRA NADAAA!! hehe)
Somos orquestradores de decisões.
Quando enfrento um incidente, eu não pergunto:
“Por que meu pod não sobe?”
Eu pergunto algo como:
“Dado tudo o que você já conhece do meu ambiente, pense como um especialista. Analise o contexto do serviço, do cluster, do tráfego e dos componentes. Em seguida, crie um plano de investigação, gere hipóteses, proponha próximos passos e itere sobre os resultados.”
A diferença não está no erro.
Está no modelo mental.
A boa (e má) notícia
A boa notícia:
IA não vai tirar o papel do SRE.
Ela vai elevar o nível do jogo.
A má notícia:
quem ficou preso ao trabalho operacional, repetitivo, sem contexto… vai sentir, por que ele sim é substituível …
Conclusão
IA não resolve incidentes sozinha — e ainda bem.
Isso significa que o que realmente importa continua sendo humano: pensamento sistêmico, arquitetura, experiência e prática em SRE. Nós somos os orquestradores. A IA é o nosso amplificador. E é exatamente nessa combinação que mora o futuro da confiabilidade.
Agora, mais do que nunca, vale investir em algo que nenhuma automação vai tirar de você: fundamentos. Estude padrões, leia livros teóricos, aprofunde-se em SRE, arquitetura e pensamento crítico. Não foque apenas na execução operacional — foque em aprender como pensar. É isso que gera valor real.
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Abraços!